domingo, 18 de janeiro de 2009

A Terra que Nunca Existiu

Um episódio de um desenho animado que vi em minha tenra infância certa vez me deixou muito intrigado.

Trata-se do desenho do Shazzan, um gênio invocado por um casal de irmãos (Jack e Nancy) quando juntam seus anéis (cada um com metade de um círculo escrito Shazzan).

Nesse episódio a aventura é na Terra que Nunca Existiu. Os irmãos, em seu simpático camelo voador (Kabupe), vão parar lá por acaso e vivem muitas aventuras, onde um cara mau tenta fazê-los desaparecerem no Nada (the Nothingness, a "Nadeza"), até que os aventureiros encontram uma flor falante que ensina uma técnica para escaparem de lá. Eles resgatam a flor e conseguem sair.

Depois que tudo se resolve, a flor se transforma numa princesa e, com a permissão dos amos, pede ao gênio:
- Eu desejo que a Terra que Nunca Existiu realmente nunca tenha existido.
- Seu desejo é uma ordem!
- Nunca Existiu sumiu! - diz Nancy. Eu, na verdade, não vi nada desaparecendo; apenas brilharam uns pontinhos mágicos numa paisagem que já estava lá.
Jack olha para flor que havia se transformado na princesa:
- Ei! Olhe para você! Você agora é como nós!
- Obrigada, Gênio! - diz a princesa a Shazzan.
- Hahahahaha! - Shazzan é cheio das risadas.
Jack ainda falou (e agora é que vem a parte legal):
- Antes de irmos, você tem que admitir uma coisa, Shazzan!
- E o que é...?
- Nós nos saímos muito bem lá.
- Lá? - Shazzan dá uma risadinha. - Lá onde, mestre?
- Em Nunca Existiu!
- Em Nunca Existiu?! Se nunca existiu, como nós podemos ter feito alguma coisa?
Nesse momento Jack faz uma cara de "Oh!". Shazzan prossegue:
- De fato, como poderíamos ter estado onde nada esteve? Hahahahahaha...
- Oh! Hahahahaha!
Todos riem e o episódio acaba.

Acaba?!!!
Se tudo o que eles fizeram "nunca existiu", o que que eu acabara de assistir? Esse monte de aventuras simplesmente nunca existiu? Como podem ter saído da existência, saído do passado? Como algo que aconteceu pode passar a nunca ter acontecido? E, se nunca aconteceu, como eles podem se lembrar de alguma coisa?! E, se lembram, eles aceitam assim, numa boa, rindo, sem sofrer o dramático paradoxo que me afligia, sem ver a implosão das bases da lógica que isso trazia?

Eu achei muito legal, pois foi algo que me fez pensar. Geralmente os desenhos animados apenas entretêm o espectador, mas este episódio me fez filosofar quando eu ainda era criança. É um estímulo muito interessante; pode até ser usado em sala de aula.

Para quem quiser ver, encontrei este episódio em inglês no Youtube. Em minhas memórias, em português se chamava "O dia que nunca existiu", o que me foi ainda mais paradoxal: a princesa desejou que o dia nunca tivesse existido, e, num passe de mágica, o dia que eles acabaram de ter saiu da existência! Aquele gênio realmente fez o dia desaparecer? Um dia que já passou, que existiu, já não existe mais, saiu da existência passada? Isso pode? Como saber que o dia realmente deixou de ter existido ou se o gênio apenas deu uma "enrolada" neles? Tudo o que eu vi nesse episódio então nunca aconteceu? Então por que fazer um episódio tão longo? E como eles se lembram? Virou "imaginação"? Mas de onde veio a princesa que agora estava com eles? Que parte do dia desapareceu? Que horas eram e que horas são? Para quem o dia desapareceu?

Um comentário:

Alexandre (Alex Starr) disse...

Sempre gostei desses desenhos "reflexivos".
Lembro-me de um, da Liga da Justiça, em que alguns personagens foram para o passado e precisavam se comunicar com pessoal do presente.
Aí, eles enterraram um dispositivo que emitiria um sinal por anos e anos, debaixo do prédio da Liga.
No "mesmo instante", no presente, o grupo que ficou recebeu o sinal e achou o dispositivo com a mensagem.
Fiquei admirado com essa interferência no presente, no fluxo do espaço/tempo.